Entrevista
com Bianca Coutinho Dias – psicanalista e crítica de arte

Bianca: Como se deu sua relação com a arte? Como sua história afetiva e pessoal influenciou seu percurso como artista?
Ciccy: Minha relação com arte começou desde criança, ainda muito pequena. Sempre amei criar e ficava encantada com as cores. A relação com práticas manuais também sempre esteve presente e minha avó paterna, que foi uma grande referência, dizia que essa conexão com a arte, com a criação, estava no nosso sangue.
Bianca: Seus primeiros desenhos em formas concêntricas e sinuosas eram vazios de cor, mas há uma relação cromática muito bonita em seu trabalho, que surgiu de maneira mais decidida nos últimos anos. Como as cores entraram e impregnaram o seu trabalho?
Ciccy: Acredito que as cores têm uma energia e potência impressionantes, uma capacidade enorme de transformar a vida. São pulsações e captam os movimentos e transformações. Primeiro nasceram as formas orgânicas e, como as cores sempre fizeram parte da minha subjetividade, fui encontrando nessa cartela singular, que é também uma forma de oração e de entrega, um gesto que pode elevar o espírito, conectando céu e terra. Os movimentos das “Glórias” surgiram de
inspirações e vivências que tive, de maneira muito espontânea.
Bianca: Ao longo do percurso, seu trabalho passou por mudanças. Ao mesmo tempo há um toque fundamental e único que foi sustentado. Flaubert dizia que a continuidade constitui o estilo, como a constância faz a virtude. Como você reconhece na linha do tempo a continuidade de seu trabalho? Como conseguiu equilibrar múltiplas tarefas e reinvenções?
Ciccy: A formação em arte me trouxe momentos de questionamentos e dúvidas. Refleti muito sobre o lugar da arte, do artista. Meu primeiro momento foi de pureza e inocência, mas logo comecei a perceber que a arte contemporânea, muitas vezes, valoriza mais o aspecto conceitual do que a relação com a beleza. Isso trouxe uma questão que hoje vem com mais intensidade e firmeza do meu propósito na arte: levar alegria e fé. Um desejo de uma arte espiritual em que prevalecem a luz e a cor.
Bianca: Seu trabalho é muito espiritual e se apresenta em estado de poesia de graça, como uma dádiva ancorada no dom de transfigurar a dor através de formas de rara sensisibilidade estética e de cores únicas. Conte um pouco mais do percurso e da transição de seu trabalho desde a formação em arte: mudança nas formas, na fatura, na relação com as cores.
Ciccy: “Glórias Vindouras” é o título criado para um trabalho na Faap no ano de 2006, com a intenção de estabelecer, através do trabalho, uma conexão divina. Anos depois, na pandemia, grávida da minha filha Glória, ressurgiu o desejo de me conectar com essas formas e movimentos: dentro e fora, céu e terra.
Bianca: Como estilista você absorve do campo da arte e de suas irradiações a força para criar. Entre dobras, tecidos e costuras há um diálogo que também transborda para seu trabalho como artista?
Ciccy: Assim como a arte a moda é expressão, criação de mundos sensíveis. Não vejo como campos separados mas, quando estou criando, há uma interlocução constante de tudo que vejo, sinto e sou. Moda e arte são eixos de vida e invenção.
