Arte e Fé – Ciccy e Mabsa

A conexão da arte e da fé entre Mabsa e Ciccy, avó e neta

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Em uma das teorias do filósofo alemão Friedrich Schiller (1759-1805), a arte se encontra como “a promessa da felicidade”. A existência dela desvia, por um lapso de tempo, a humanidade do caminho da dominação, do desespero inerente à vida, e aproxima nosso cerne da liberdade total. Uma situação de real felicidade é composta de tal intensidade, fragilidade e, ao mesmo tempo, força que é possível por meio dela modificar inteiramente a vida humana. Para ele, assim também é a arte.

Foi esse o significado primordial do fazer artístico na vida de Maria Amélia Arruda Botelho de Souza Aranha, que recorreu às iniciais do nome como assinatura de
sua produção. Em carta antiga escrita à neta Ciccy, que, assim como ela, encontra na arte o refúgio para expandir sua alegria de viver, dizia: “A bela menina
que, sem saber, herdou a flor da minha arte. E que dirão no futuro suas cores, a magia de suas figuras e o desespero de criar? Saberá levar esta carga adiante?

Para vencer na arte é preciso muita coragem!
Só o desespero de criar sustenta o viver como artista”. O futuro, do qual MABSA falava com certo receio, chegou. E a magia das cores de Ciccy triunfou e ganha agora o amplo espaço do Studio 689, do arquiteto e designer Ugo di Pace, em uma trama ancestral que vincula sua obra à da própria avó.

O delinear vivo e artístico da neta habita suas entranhas há muito tempo, quando decidiu à revelia de muitos cursar artes plásticas, na FAAP.

Mas foi durante o período pandêmico do último ano e meio que seu traço ganhou asas e a série de pinturas e desenhos, o nome: Glórias Vindouras.

A fé inabalável de Ciccy alçou um voo poderoso e penetrante, baseando-se em uma palavra que move mundos e dita seu próprio caminho, a fé. Um ponto indiscutível entre as duas artistas é a relação com o divino, com o espírito santo e com toda a força celeste que lhes deu a coragem necessária para seguir o mesmo caminho.

O título da atual mostra retoma uma das emblemáticas exposições de MABSA, que ocorreu na cripta do Pateo do Collegio, em 1996. Arte e fé foram o nome, o norte e os dois pilares da criação surrealista e mitológica da paulistana, que trazia tanto para o bi como para o tridimensional seres fantásticos que habitavam seus sonhos. Ciccy e MABSA mais uma vez se encontram nesse vértice, pois é através do inconsciente e do irracional que produzem e encontram-se mais próximas entre si e de suas próprias criações.

A promessa da felicidade que tanto falava Schiller está aqui, diante de nossos olhos. É essa a experiência que as artistas buscam proporcionar a nós, visitantes, sobre sua jornada. É pelo caminhar entre desenhos, pinturas, esculturas e histórias de Ciccy e MABSA que talvez possamos também encontrar este sentimento, aquele que é capaz de nos tirar abruptamente do mundo real e nos transferir para o mundo fantástico da plena satisfação.

Felizes e mergulhados na arte, enfim.

Ana Carolina Ralston
curadora

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