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Ciccy Halpern

São Paulo, Brasil, 1985



Entre formas e cores, o múltiplo trajeto artístico de Ciccy Halpern

A relação de Ciccy Halpern com a arte foi estabelecida na infância, construída no contato afetivo e estético com a avó. O primeiro artista que a impactou e emocionou foi Monet, com as cores e diferentes fases de sua obra. Depois, com Matisse, múltiplas questões da relação cromática se abriram para a artista.

A cor, componente central do seu trabalho, a potência da fé e a relação com a religiosidade são elementos que constituem o solo inventivo por onde sua criação escoa.

As formas que dançam nos desenhos e pinturas fazem com que o olhar percorra o movimento de imagens sinuosas e grande exuberância cromática. No assentamento da cor sobre tela ou papel, o embate das formas cria uma pintura de sensibilidade hiperbólica, que nasce da fricção entre uma figuração barroca e uma construção vigorosa e alegre que exalta a vida.

Assim surgiram “Glórias Vindouras”, trabalho apresentado em 2006 (FAAP) que continua em expansão, encontrando novos sentidos estéticos e espirituais. Seus gestos desenham deslocamentos, ora concêntricos, ora abertos, mostrando de maneira fluida e generosa as coisas e o mundo, lembrando Hilma af Klint, que conciliou uma intensa vida artística e religiosa como propósito de existência, registrada em páginas de manuscritos, pinturas e estudos, em tentativas de representar o mundo espiritual através da materialidade de suas obras. Como no trabalho de Ciccy, a arte de Hilma traduzia elevado sentimento de fé e espiritualidade, característica fundamental também para artistas como Kandinsky e Mondrian.

Em “A dança”, obra de referência importante para Ciccy, Matisse simplifica o gesto para que as formas ocupem a tela em um padrão rítmico de movimento expressivo, criando uma imagem na qual as relações abstratas entre forma e cor são fundamentais. Esse gesto artístico, não por acaso, dá contorno à relação da artista com o desenho e a pintura. Mas foi durante a pandemia que Ciccy adensou sua relação com a arte de maneira incontornável: do confinamento a artista cria vida e movimento em composições de rara simplicidade e fineza. Há um ato pulsante que se interessa pela profusão da ornamentação barroca, sobretudo pelo ritmo dos arabescos e motivos ornamentais e, também, o desejo de beleza revelado na extrema sensibilidade no uso da cor.

A relação ancestral com as mulheres de sua família são raízes profundas garimpadas na memória afetiva que adentram e reforçam o redemoinho da feminilidade constitutiva de seu trabalho. Cada cor empresta certo caráter à pintura ou ao desenho e, hoje, cores alegres e jubilosas fazem lembrar da natureza, da beleza e de um variado espectro de referências particulares que encontra eco nas pinturas da avó, na relação com a moda e o design, em sua fé. Uma ligação profunda entre vida e arte, onde o que interessa é criar uma iconografia particular de celebração da existência e do mistério. Em seu relicário amoroso e artístico cabem todas as referências de um múltiplo percurso existencial. Trata-se de uma forma de escrita, de redesenho do mundo, de mágica e alquimia como nos lembra Clarice Lispector: “Na arte, a inspiração tem um toque de magia, porque é uma coisa absoluta, inexplicável”.

Bianca Coutinho Dias – psicanalista e crítica de arte